O canto das sereias nas redes sociais: Simbolismo da Sereia

Quando eu morrer

Voltarei para buscar os instantes

Que não vivi junto do mar

– MARIA BETHÂNIA
Sereias do ser, em pastel oleoso, por Kaligula. Junho de 2021
Sereias do Ser, Pastel Oleoso (Junho 2020) – Kaligula. “Quando pintei essas sereias, na saudade de casa durante a pandemia em São Paulo, não tinha em mente o tamanho do meu reencontro com seu simbolismo ao retornar para Búzios. ”

” Tudo é uma evolução constante

O que antes foi, hoje não é mais

O que seria, nunca foi

Sereias que navegam nas águas do tempo, não se afogam nas profundezas do ser

Elas conhecem o segredo da criação

Sabem que tudo nasce, morre e renasce nas águas “

Não é raro encontrar algum rabo de peixe de ponta cabeça com indicações solares de água e felicidade. Por todos os lugares vemos referências da figura mitológica feminina que habita a imaginação da liberdade dos prazeres na água. Sejam as de água doce, posando em rios e cachoeiras, ou as do sal repousadas em suas cangas de praia ou pranchas de surfe.

O misticismo das donzelas meio habitantes das profundezas decora um dos arquétipos femininos mais presente nos dias de hoje; principalmente em áreas do litoral onde a vida praiana é muito mais do que apenas um estilo de vida; mas também uma cultura enraizada que se desenrola todas as suas atividades ao redor do mar e do sol. Como é o caso da cidade em que moro, Búzios.

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A Magia da Arte: artigo para o mulheres da magia

Quando o Diabo era uma mulher,
Quando Lilith enrolou
Seu cabelo de ébano em pesadas tranças,
E emoldurou
Suas feições pálidas com os
pensamentos emaranhados de Botticelli,
Quando ela, sorrindo suavemente,
Rodou todos os seus dedos magros
Em faixas douradas com pedras brilhantes,
Quando Ela folheou Villiers
E amou Huysmans,
Quando ela sondou o silêncio de Maeterlinck
E banhou sua Alma
Nas cores de Gabriel d’Annunzio,
Ela até riu
E como ela riu,
A pequena princesa das serpentes saltou
de sua boca.
Então a mais bela das diabas
Procurou a serpente,
Ela agarrou a Rainha das Serpentes
com seu dedo anelado, De
modo que ela feriu e sibilou
Assobiou, assobiou
E cuspiu veneno.
Em um vaso de cobre pesado;
Terra
úmida, Terra úmida negra
Ela se espalhou sobre ela.
Levemente suas grandes mãos acariciaram
Este pesado vaso de cobre
Ao redor,
Seus pálidos lábios cantaram levemente
Sua antiga maldição.
Como uma rima infantil, suas maldições soaram,
Suaves e lânguidas,
Languidas como os beijos,
Que a terra úmida bebeu
de sua boca,
Mas a vida surgiu no vaso,
E tentada por seus beijos lânguidos,
E tentada por aqueles tons doces,
Da terra negra lentamente se esgueiraram,
Orquídeas
Quando a mais amada
Adorna suas feições pálidas diante do espelho
Tudo em volta com víboras de Botticelli
Rastejam para o lado do vaso de cobre, Orquídeas
Flores do diabo que a terra antiga, Casadas
pela maldição de Lilith
Para o veneno da serpente trouxe à luz
Orquídeas, as flores do Diabo

HANNS HEINZ EWERS

Lilith, 2020 – Kaligula

O invisível e o visível se unem abstratamente em nossas mentes e corações. O mundo invisível toca tudo aquilo que não podemos sentir com nossas mãos, mas sentimos suas vibrações através dos arrepios em nossa pele. O mundo visível, é tudo aquilo que conseguimos tocar com nossos olhos e sentir em nossas memórias. 

A arte, sempre foi um mediador entre o mundo imaterial e o material. Um canal de comunicação entre o que conseguimos abstrair das nossas impressões sobre a realidade, e o que manifestamos subjetivamente para alimentar nossas concepções sobre os poderes invisíveis. 

No traço do artista, encontramos símbolos, deuses, santos e diabos; vislumbramos perguntas, encontramos respostas, buscamos aquilo que alimenta nossa insaciável sede do algo mais. Já o artista, encontra em sua própria arte o âmago de seu ser; a sua inspiração de vida, centelha divina da criação de seu universo particular e íntimo. O artista é mais do que um mero mediador, ele é parte ativa do processo de construção da fé; ele está ali, em sua função quase sacerdotal de manifestar aquilo que a razão das palavras não consegue descrever, mas que o coração entende. 

A comunicação da arte não é racional, é subjetiva; fala direto ao coração o que nossas mentes não conseguem descrever; é a linguagem primitiva do invisível. 

Quando manifestamos símbolos que tem grande importância emocional na ligação com nossas crenças, nos sentimos parte criadora e ativa de nossos universos. Reconhecemos o poder de comunicação que cada um de nós tem com os seres invisíveis, reforçamos nossos laços de fé, percebemos visualmente o quanto nós, desse lado, estamos unidos com os outros, do outro lado. Rompemos a barreira do mundo visível e invisível. 

Nossa relação com o mundo invisível nem sempre é de cá pra lá, muitas vezes ela também é de lá para cá; isso quer dizer o quão ativos ou passivos somos em relação a direção das energias que transitam e fluem entre os mundos; se recebemos informações, ou enviamos informações para o outro lado, e como respondemos. A arte também faz parte desse processo.
Enquanto alguns artistas se concentraram em enviar informações através das suas criações, moldando o universo. Alguns outros artistas se concentram na manifestação dessas informações já existentes do outro lado e no compartilhamento com os outros dessas informações que ele recebe. 

Cada um de nós possui esses dois tipos de artistas dentro de sí, escolhendo em diferentes momentos da vida de que maneira manifestará a sua arte no mundo. 

Na magia, não é diferente. Podemos ser ativos, ou passivos com os poderes que trabalhamos; se agimos nos mundos de acordo com nossas vontades, ou se precisamos refletir sobre o resultado das ações dos mundos em nós. A arte é uma das ferramentas mais incríveis que podemos utilizar para manipular esses processos. Através de um desenho feito de maneira automática, por exemplo, podemos dar forma ao que não entendemos racionalmente; mas que angustia nosso peito. Já um desejo pode ser manifestado em um símbolo para que ele faça acontecer aquela ideia no mundo. 

A experiência de se entender como criador e resultado da própria arte de ser, abre as portas da nossa percepção sobre a essência do que sempre fomos, visível e invisivelmente.

Publicado originalmente em: https://mulheresdamagia.com.br/

Escrito durante o Outono, 2020
Victória Lisboa, a Kaligula

Ruptura: Energia da mudança

” Nada é permanente, exceto a mudança “

HERÁCLITO
Ruptura, o exagero da mudança, 2020 – Kaligula

” Em tudo existe um exagero
em ser, sentir

Dizer e fazer

Dos exageros que mais gosto,
a mudança.

A ruptura,
o ponto de ignição

Romper com o velho
abrir espaço para o novo

É minha história de amor favorita “


Conforme o tempo tem passado percebo que não sou nada além do que uma coleção de rupturas. Cada ruptura que abracei durante todas as minhas mudanças de fases é mais importante do que cada casca que vesti.

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A magia de Rosa Caveira

Foi na calunga que um boato se espalhou

Uma mulher da morte retornou

“Numa caverna na estalagem das almas, perdida vagava me perguntando onde estava. Uma moça pegou minha mão, disse que precisava me apresentar a alguém, seu vestido pintado pelo meio me chamou atenção.
Ela ajeitou a rosa no cabelo, olhou para mim e disse que a melhor parte de estar morta era poder dar risada, e gargalhou na minha cara.
A mão de esqueleto que me segurava, guiava-me pela escuridão com passos de dança entre os mortos.”

Acordei nesse dia com o nome Rosa Caveira claro na minha mente, um pouco confusa porque nunca tinha tido qualquer tipo de envolvimento com Exus na época, mas não havia dúvidas de que tinha sonhado com uma pomba gira e que ela tinha se apresentado. Meu conhecimento sobre esses espíritos não passava de um grande respeito, que me fazia não me aventurar no campo da espiritualidade brasileira por receio de desrespeitar essas entidades. Mas após esse sonho, foi como se a minha memória fizesse questão de reviver cada momento da minha infância em que fiquei impressionada com as histórias de envolvimento com a macumba da minha família.

Percebi que guardava com muito carinho cada informação colhida quando criança das conversas entre minha mãe, tia e avó. Fascinada, ouvia elas contando sobre o que tinham pedido em busca de proteção e cura, bisbilhotava com curiosidade os objetos abençoados que elas traziam dos centros que protegeriam nossa família. Tudo era muito fantástico e misterioso sobre essas histórias, e a boneca dada por um espírito era o objeto de atenção mais disputado entre mim e minhas irmãs.

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O dilema do artista e o preço da própria arte

“A arte tem que nos revelar ideias, essências espirituais amorfas. A suprema questão para uma obra de arte é quão profunda é a vida de onde ela brota.”


JAMES JOYCE
Mercúrio em Câncer, o eclipse do ser, 2020 - Kaligula
Mercúrio em Câncer, o eclipse do ser, 2020 – Kaligula

Acredito que todos os artistas tem que passar pelo processo de aprender valorizar a própria arte. Não apenas no sentido de encontrar o próprio valor através da arte, mas também no quesito mais econômico da coisa.

Essa parece ser uma das fases que não só começa a carreira do artista mas também onde brotam as primeiras sementes do reconhecimento do trabalho artístico.
E assim como uma adolescente, eu me sinto passando essa fase. Uma fase cheia de inseguranças e questionamentos que me fazem refletir sobre o quanto vale a minha arte.

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Pela metade morta, para a viva: um desabafo em tempos de quarentena

” Quando, seja pela felicidade ou pela desgraça, é a alma especialmente impressionada, chega-se a supor que a nada mais ela se faz sensível.”

Dante Alighieri
Rosa Caveira, em arte digital – Kaligula, 2020

Então, o mundo virou de cabeça pra baixo de vez ultimamente. Não que as coisas estivessem normais antes, muito pelo contrário. Só que na ultima porção de dias, que se perderam nas minhas contas, não tenho mais esperado por nada dentro do que consideraria normal em outras circunstâncias. Num panorama longe, talvez eu já tenha me afastado tanto do que é normal, que a própria anormalidade já se tornou rotina.

O que me assusta.

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Algumas experiências com arte digital

“Descobri que sou um criador de imagens e não me importo como é feito – seja através de pintura, fotografia ou desenho – só quero criar imagens”

JAMES STANFORD
Diana da Lua,
Diana da Lua

Na metade do ano passado comprei uma mesa digitalizadora para tentar me aventurar pelo mundo da arte digital. O que eu mais estranhei foi a falta de contato com a tinta fisicamente, já grande parte do fazer artístico e seus prazeres  está relacionada com toda experimentação em busca dos tons. Isso sem falar da adaptação ao programas de edição e pintura digitais, que são necessários pra fazer os desenhos.

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Nanquim e fogo: Desenho automático e Exus

Quem pode me definir se sou a própria contradição? Nem bom nem ruim, nem quente nem frio, nem sombra nem luz! Mas não se engane, não sou meio-termo. Sou tudo e não sou nada! Ousadia é meu nome. Estou sempre pronto, pra luta ou pra farra. Já te disse meu nome? Sou Exu! Muito prazer! ”

MARIO CRAVO
Pomba gira, em nanquin - Kaligula, 2018
Pomba gira, em nanquin – Kaligula, 2018

Recentemente fui convidada para participar com as minhas ilustração de um livro sobre Exus que está sendo re-lançado pela editora independente Parzifal Publicações. O convite surgiu à partir de uma ilustração em nanquim que fiz seguindo a técnica de desenho automático, que acabou culminando na ilustração de um ser que identifiquei como sendo um exu.

Antes de entrar nas considerações sobre as ilustrações e a experiência do processo, exploremos um pouco da teoria sobre a técnica de desenho automático e a sua relação com as espiritualidades, magia e o inconsciente do artista.

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Breve resumo da história das tintas naturais e suas cores

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“Quando a cor tem a maior riqueza, a forma atinge a plenitude.”  – Paul Cézanne


O termo “tinta natural” que designa as tintas feitas à partir de pigmentos obtidos de matéria prima exclusivamente natural, apenas passou a ser utilizado nos últimos séculos, após 1856 ao inventarem as tintas feitas somente de compostos químicos manipulados em laboratórios dando origem às tintas artificiais. Toda tinta antes dessa revolução na industria de pigmentos e colorantes era considerada simplesmente tinta.

A utilização de fontes naturais como matéria prima para pigmentos coloridos é recorrente em todas as partes do mundo. Praticamente todos os tipos de sociedades e culturas desenvolveram técnicas para dar cor às suas criações. As primeiras tintas que temos registros são as pinturas pré-históricas em cavernas (30.000 – 8.000 a.c) feitas à partir da utilização de terras coloridas, pó de rochas, colas vegetais e animais,  carvão vegetal e sangue. Como terras e rochas são pigmentos altamente duráveis e as pinturas estavam protegidas da ação do tempo nas cavernas, muitas continuam conservadas até os dias atuais Continuar lendo

Uma arte da alma

“Um paradoxo se coloca: o moderno, no presente, volta-se ao passado. Recusa o antigo, mas refugia-se na história: modernidade e moda retrô caminham em par” – Jacques Le Goff 


Talvez meu interesse por arte tenha surgido mais ou menos ao mesmo tempo quando comecei a me interessar por mitologias, deuses antigos, culturas diferentes e tudo aquilo que aguçasse minha curiosidade quando criança. Talvez ai, durante esses tenros anos da infância, é que tenha começado a minha história de interesse pelo invisível através do era visível. É por isso que pra começar a contar a história do surgimento desse blog é que volto no tempo, com a minha própria história. Relembrando minhas memórias. Continuar lendo