A magia de Rosa Caveira

Foi na calunga que um boato se espalhou

Uma mulher da morte retornou

“Numa caverna na estalagem das almas, perdida vagava me perguntando onde estava. Uma moça pegou minha mão, disse que precisava me apresentar a alguém, seu vestido pintado pelo meio me chamou atenção.
Ela ajeitou a rosa no cabelo, olhou para mim e disse que a melhor parte de estar morta era poder dar risada, e gargalhou na minha cara.
A mão de esqueleto que me segurava, guiava-me pela escuridão com passos de dança entre os mortos.”

Acordei nesse dia com o nome Rosa Caveira claro na minha mente, um pouco confusa porque nunca tinha tido qualquer tipo de envolvimento com Exus na época, mas não havia dúvidas de que tinha sonhado com uma pomba gira e que ela tinha se apresentado. Meu conhecimento sobre esses espíritos não passava de um grande respeito, que me fazia não me aventurar no campo da espiritualidade brasileira por receio de desrespeitar essas entidades. Mas após esse sonho, foi como se a minha memória fizesse questão de reviver cada momento da minha infância em que fiquei impressionada com as histórias de envolvimento com a macumba da minha família.

Percebi que guardava com muito carinho cada informação colhida quando criança das conversas entre minha mãe, tia e avó. Fascinada, ouvia elas contando sobre o que tinham pedido em busca de proteção e cura, bisbilhotava com curiosidade os objetos abençoados que elas traziam dos centros que protegeriam nossa família. Tudo era muito fantástico e misterioso sobre essas histórias, e a boneca dada por um espírito era o objeto de atenção mais disputado entre mim e minhas irmãs.

Continuar lendo

O dilema do artista e o preço da própria arte

“A arte tem que nos revelar ideias, essências espirituais amorfas. A suprema questão para uma obra de arte é quão profunda é a vida de onde ela brota.”


JAMES JOYCE
Mercúrio em Câncer, o eclipse do ser, 2020 - Kaligula
Mercúrio em Câncer, o eclipse do ser, 2020 – Kaligula

Acredito que todos os artistas tem que passar pelo processo de aprender valorizar a própria arte. Não apenas no sentido de encontrar o próprio valor através da arte, mas também no quesito mais econômico da coisa.

Essa parece ser uma das fases que não só começa a carreira do artista mas também onde brotam as primeiras sementes do reconhecimento do trabalho artístico.
E assim como uma adolescente, eu me sinto passando essa fase. Uma fase cheia de inseguranças e questionamentos que me fazem refletir sobre o quanto vale a minha arte.

Continuar lendo

Pela metade morta, para a viva: um desabafo em tempos de quarentena

” Quando, seja pela felicidade ou pela desgraça, é a alma especialmente impressionada, chega-se a supor que a nada mais ela se faz sensível.”

Dante Alighieri
Rosa Caveira, em arte digital – Kaligula, 2020

Então, o mundo virou de cabeça pra baixo de vez ultimamente. Não que as coisas estivessem normais antes, muito pelo contrário. Só que na ultima porção de dias, que se perderam nas minhas contas, não tenho mais esperado por nada dentro do que consideraria normal em outras circunstâncias. Num panorama longe, talvez eu já tenha me afastado tanto do que é normal, que a própria anormalidade já se tornou rotina.

O que me assusta.

Continuar lendo

Algumas experiências com arte digital

“Descobri que sou um criador de imagens e não me importo como é feito – seja através de pintura, fotografia ou desenho – só quero criar imagens”

JAMES STANFORD
Diana da Lua,
Diana da Lua

Na metade do ano passado comprei uma mesa digitalizadora para tentar me aventurar pelo mundo da arte digital. O que eu mais estranhei foi a falta de contato com a tinta fisicamente, já grande parte do fazer artístico e seus prazeres  está relacionada com toda experimentação em busca dos tons. Isso sem falar da adaptação ao programas de edição e pintura digitais, que são necessários pra fazer os desenhos.

Continuar lendo

Nanquim e fogo: Desenho automático e Exus

Quem pode me definir se sou a própria contradição? Nem bom nem ruim, nem quente nem frio, nem sombra nem luz! Mas não se engane, não sou meio-termo. Sou tudo e não sou nada! Ousadia é meu nome. Estou sempre pronto, pra luta ou pra farra. Já te disse meu nome? Sou Exu! Muito prazer! ”

MARIO CRAVO
Pomba gira, em nanquin - Kaligula, 2018
Pomba gira, em nanquin – Kaligula, 2018

Recentemente fui convidada para participar com as minhas ilustração de um livro sobre Exus que está sendo re-lançado pela editora independente Parzifal Publicações. O convite surgiu à partir de uma ilustração em nanquim que fiz seguindo a técnica de desenho automático, que acabou culminando na ilustração de um ser que identifiquei como sendo um exu.

Antes de entrar nas considerações sobre as ilustrações e a experiência do processo, exploremos um pouco da teoria sobre a técnica de desenho automático e a sua relação com as espiritualidades, magia e o inconsciente do artista.

Continuar lendo

Breve resumo da história das tintas naturais e suas cores

a9fd0d1e60a7df36c5de4b5df23a4c7f

“Quando a cor tem a maior riqueza, a forma atinge a plenitude.”  – Paul Cézanne


O termo “tinta natural” que designa as tintas feitas à partir de pigmentos obtidos de matéria prima exclusivamente natural, apenas passou a ser utilizado nos últimos séculos, após 1856 ao inventarem as tintas feitas somente de compostos químicos manipulados em laboratórios dando origem às tintas artificiais. Toda tinta antes dessa revolução na industria de pigmentos e colorantes era considerada simplesmente tinta.

A utilização de fontes naturais como matéria prima para pigmentos coloridos é recorrente em todas as partes do mundo. Praticamente todos os tipos de sociedades e culturas desenvolveram técnicas para dar cor às suas criações. As primeiras tintas que temos registros são as pinturas pré-históricas em cavernas (30.000 – 8.000 a.c) feitas à partir da utilização de terras coloridas, pó de rochas, colas vegetais e animais,  carvão vegetal e sangue. Como terras e rochas são pigmentos altamente duráveis e as pinturas estavam protegidas da ação do tempo nas cavernas, muitas continuam conservadas até os dias atuais Continuar lendo

Uma arte da alma

“Um paradoxo se coloca: o moderno, no presente, volta-se ao passado. Recusa o antigo, mas refugia-se na história: modernidade e moda retrô caminham em par” – Jacques Le Goff 


Talvez meu interesse por arte tenha surgido mais ou menos ao mesmo tempo quando comecei a me interessar por mitologias, deuses antigos, culturas diferentes e tudo aquilo que aguçasse minha curiosidade quando criança. Talvez ai, durante esses tenros anos da infância, é que tenha começado a minha história de interesse pelo invisível através do era visível. É por isso que pra começar a contar a história do surgimento desse blog é que volto no tempo, com a minha própria história. Relembrando minhas memórias. Continuar lendo