Nanquim e fogo: Desenho automático e Exus

Quem pode me definir se sou a própria contradição? Nem bom nem ruim, nem quente nem frio, nem sombra nem luz! Mas não se engane, não sou meio-termo. Sou tudo e não sou nada! Ousadia é meu nome. Estou sempre pronto, pra luta ou pra farra. Já te disse meu nome? Sou Exu! Muito prazer! ”

MARIO CRAVO
Pomba gira, em nanquin - Kaligula, 2018
Pomba gira, em nanquin – Kaligula, 2018

Recentemente fui convidada para participar com as minhas ilustração de um livro sobre Exus que está sendo re-lançado pela editora independente Parzifal Publicações. O convite surgiu à partir de uma ilustração em nanquim que fiz seguindo a técnica de desenho automático, que acabou culminando na ilustração de um ser que identifiquei como sendo um exu.

Antes de entrar nas considerações sobre as ilustrações e a experiência do processo, exploremos um pouco da teoria sobre a técnica de desenho automático e a sua relação com as espiritualidades, magia e o inconsciente do artista.

A técnica do desenho automático consiste em desenhar livremente sem interferir racionalmente no processo de criação, deixando que as linhas aleatórias tomem formas abstratas de acordo com os impulsos inconscientes transferidos direto para o papel, à partir dos movimentos subconscientes da mão. O desenho é feito sem planejamento, sem a restritiva do plano mental criativo racional sobre. É criado à partir de formas que habitam o inconsciente e que são transpostas pelo movimento das mãos desprovido de vontade condicionadora.  Funciona como um método de comunicação direta entre os planos inconscientes e o plano material visual.


Austin Osman Spare em seu artigo Desenho Automático,  define-o como:

Um rabisco “automático” de torcer e entrelaçamento de linhas permite a germe de uma ideia no subconsciente de expressar, ou pelo menos sugerir -se à consciência. A partir desta massa de formas de procriação, cheio de falácia, um embrião fraco de ideia pode ser selecionado e treinado pelo artista para o pleno crescimento e alimentação. Por esses meios, podem as mais profundas profundezas do memória serem utilizada e as fontes do instinto aproveitado.” 

Essa técnica é especialmente gostosa de ser aplicada por permitir tanta liberdade expressiva,  não há uma anseio em tornar o desenho “correto” ou “bom”, ou seguir uma determinada regra, como;  proporção, sombras, luz, ou formas corretas.  Não há a restrição do perfeccionismo de reproduzir perfeitamente a ideia. Permite um contato maior com as emoções, intuições e a experiencia sensorial de pintar ou desenhar.
Geralmente os artistas surrealistas utilizam muito essa técnica para colher ideias embrião das formas aleatórias, como base para as misturas com as técnicas realistas.
Em uma outra passagem especialmente interessante do mesmo artigo, Spare fala sobre a conexão entre o desenho automático e a instintiva sexual:


“Na condição de êxtase de revelação do subconsciente, a mente
 eleva os poderes sexuais ou herdadas (este não tem nenhuma referência à moral teoria ou prática) e diminui as qualidades intelectuais. Assim, uma nova responsabilidade atávica é atingida por atrever-se a acreditar, possuindo uma crença própria, sem tentar racionalizar idéias espúrias de preconceituosa e contaminadas fontes intelectuais” 

É neste ponto que a manifestação representativa dos Exus e as ideias relacionadas à eles se encontram com o desenho automático. Em sua origem africana, a divindade Esu é o mensageiro entre os homens e os deuses, o conhecedor da linguagem dos dois mundos. As ideias foram se relacionando e transmutando nas religiões nascidas no novo mundo e ganhando novos contornos com os culto dos Exus e Pomba Giras como entidades múltiplas com diferentes funções e interpretações, mas que trazem algo desse significado. Além de estarem relacionados com a força da natureza, potência do movimento e da comunicação, na Quimbanda é um espírito ancestral e familiar responsável por guardar, proteger e ensinar seus fiéis nos caminhos do destino. O tema em sí é muito complexo e não me considero suficiente entendedora dos mistérios relacionados aos Exus para me estender dentro desse assunto.

Observando as diferentes imagens representativas de Exus e Pomba Gíras,  mesmo sem se aprofundar em seus mistérios observamos a marcação de alguns elementos simbólicos, como: morte, mortos, plano dos mortos, magia, sexualidade, fertilidade, noite e fogo. Todos esses elementos estão relacionados também com aspectos inconscientes e instintivos, por estarem mais do lado “caótico” da moeda, como princípios acausais/não materiais que causam alterações aqui no plano causal/material.  Além de sempre estarem bastante relacionados com “tabus” sociais muito próximos ao inconsciente reprimido social.

Levando em consideração o simbolismo geral dos Exus e do que o desenho automático  se propõe à, também, trazer a tona dos “planos ocultos e sombrios” a aproximação da ferramenta com o “tema” do desenho é clara.

Quando fiz a primeira ilustração, que surgiu quase inteiramente através do desenho automático, achei curioso reparar em como muitos elementos próximos ao caráter caótico e instintivo dos Exus se apresentaram.

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Maioral – Primeira ilustração

É claro que posteriormente fui trabalhando com o que tinha sido feito espontaneamente, acrescentando símbolos que se relacionassem com o que me pareceu ser o resultado do processo aleatório. O que achei mais interessante nessa ilustração foi o tom rústico e primitivo, como se tivesse nascido das cinzas e do fogo.

Já os desenhos posteriores, tiveram sua temática pré-definida dentro dessa lógica dos Exus e Pomba Giras, porém sem a definição de sua composição. Esta eu deixei à cargo do desenho automático com apenas a intenção do tema, sem a racionalização de seus contornos.

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Rosa Caveira – Segunda ilustração

Na ilustração da Rosa Caveira, tinha a intenção de desenhá-la, porém, não defini exatamente como seria o desenho ou detalhes, ao invés disso apenas fixei a intenção subconsciente e me deixei levar pelo papel sem controlar racionalmente os movimentos, enquanto escutava seu ponto cantado e prestava mais atenção na música do que no desenho que estava fazendo. Ou seja, relegando à segundo plano a ação de pintar e deixando o foco da atenção recair sobre a música, permitindo que as mãos trabalhassem de modo automático e aleatório. O resultado foi uma combinação caótica de linhas rodando que me lembraram vagamente uma saia e fogo ao mesmo tempo. Passada essa primeira etapa do “embrião” da pintura, me dediquei à completá-la acrescentando detalhes, porém, sem me apegar ao perfeccionismo estético das formas.
Repeti esse mesmo processo na realização das outras pinturas e consegui alcançar a mesma estética de sujeira e caos. Muito mais relacionada com a expressão emocional e a subjetividade inconsciente, que dialoga com a energia intensa sexual e viril dos Exus. Que combina com essa impressão de “ter sido feito às pressas”, como se fosse algo urgente, que “pula” pra fora sem controle ou medida de vazão, que não pode ser controlado ou definido pela razão, como a própria expressão das paixões e o fogo.

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Encruzilhada – Terceira Ilustração
kaligula04
Pontos riscados, RISCADOS! – Quarta ilustração

Victoria, a Kaligula Runavigonark.
Inverno de 2018


4 respostas em “Nanquim e fogo: Desenho automático e Exus

  1. Representações interessantíssimas de Exus e Pombagiras, carregando tudo o que Eles são e não são. A arte apresentando a Grande Encruzilhada ficou mais do que perfeita.

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