Algumas experiências com arte digital

“Descobri que sou um criador de imagens e não me importo como é feito – seja através de pintura, fotografia ou desenho – só quero criar imagens”

JAMES STANFORD
Diana da Lua,
Diana da Lua

Na metade do ano passado comprei uma mesa digitalizadora para tentar me aventurar pelo mundo da arte digital. O que eu mais estranhei foi a falta de contato com a tinta fisicamente, já grande parte do fazer artístico e seus prazeres  está relacionada com toda experimentação em busca dos tons. Isso sem falar da adaptação ao programas de edição e pintura digitais, que são necessários pra fazer os desenhos.

A mesa que comprei foi a mais barata que consegui encontrar, já que a ideia era justamente experimentar pra ver se me adaptaria. Que foi a da marca HUION, modelo H420 e custou cerca de R$240,00 reais. Ela vem com a tablet, um cabo USB, algumas ponteiras de reposição e a caneta que funciona à base de pilha.
Basicamente, funciona da seguinte forma: você desenha com a caneta em cima da tablet, e usa algum programa da sua escolha pra digitalizar e reproduzir os movimentos. Alguns programas conseguem reproduzir pressão que é feita, como por exemplo o Illustrator CC e o Krita. A caneta vem com dois botões que funcionam da mesma forma que os botões do mouse. Então dependendo do programa, dá pra configurar esses botões com funções específicas como palhetas de cores, ferramentas, texturas de pincéis e etcs.

Outra coisa que acho importante comentar, é que eu não consegui configurar essa tablet no Illustrator. Parece que tem algum problema entre as atualizações do windows 10 e o driver que é responsável pela identificação da pressão da caneta. Então até o momento, tenho usado o Krita, que é muito bom e tem quase as mesmas funções do Illustrator.


A EXPERIÊNCIA

A primeira impressão que tive ao desenhar usando a tablet é que eu tinha desaprendido tudo o que sabia sobre desenhar. É uma experiência totalmente nova.
A caneta é bem mais pesada na mão do que pincéis e lápis, o posicionamento das mãos em relação ao teclado/tela/caneta também é bem desconfortável no início; o único jeito que consegui me adaptar foi usando a caneta/tablet no lugar do mouse. E também tem a questão de aprender a usar o programa e conseguir se localizar nele.

Agora, no quesito facilidade e limpeza é uma maravilha. É muito libertador criativamente não precisar se restringir a erros ou linhas de orientação porque dá pra apagar qualquer coisa sem deixar nenhum vestígio. Passa a existir a possibilidade de sobreposição de desenhos pra usar como referência através das camadas e mais um monte de novas possibilidades, que não explorei porque ainda preciso me entender melhor com a movimentação da caneta.

Após algumas tentativas de desenho livre em uma página em branco, acabei chegando a conclusão que a forma mais fácil e menos irritante de treinar a coordenação motora com a caneta, seria utilizando uma foto sobreposta como referência.

Lembra o que eu disse sobre ter a impressão de ter desaprendido a desenhar? Pois é. 

E não, eu não sou o tipo de artista que consegue se concentrar em exercícios pra aperfeiçoar formas, então todos os exercícios que procurei na internet pra treinar as formas mais básicas só conseguiram me irritar. Porque era totalmente impossível pra mim fazer uma linha reta, ou um circulo perfeito não importava quantas vezes eu repetisse os mesmos movimentos.

Eu acho que começar se irritando com uma ferramenta pela sua incapacidade em conseguir manifestar suas abstrações, é a pior forma de começar qualquer desenho. Por isso, usei uma foto minha na camada de baixo pra fazer um auto-retrato e conseguir explorar um pouco do primeiro programa que usei, que foi o PaintTool SAI.

Apesar de ter gostado bastante do resultado final, não me adaptei a esse programa porque não gostei das ferramentas de mistura entre as cores e os pincéis disponíveis. Achei tudo muito pixelizado e pouca precisão na reprodução da pressão da caneta.

Auto-retrato. Primeiro desenho digital - 21/03/2018
Auto-retrato. Primeiro desenho digital – 21/03/2018 – Por Kaligula ( Victoria Lisboa )

Ter gostado do resultado e do simbolismo interno que acabei manifestando nesse desenho, foi fundamental para continuar explorando o mundo da arte digital.
Ao longo da minha vida, sempre tive uma forte conexão com o mar e ter explorado isso , mesmo que de maneira inconsciente, me fez ver que a arte digital também nos proporciona a possibilidade de se expressar em totalidade. Conscientemente e inconscientemente.

Seguindo a mesma lógica anterior, de sobreposição de camadas, utilizei a pintura O Nascimento de Vênus de Sandro Botticelli, para continuar treinando os traços e o refinamento dos movimentos com a caneta. Dessa vez, utilizei o Krita que tem mais ferramentas e uma área de trabalho melhor do que o PaintTool SAI. Foi fundamental esse exercício, porque me concentrei em fazer linhas mais continuas e mais definidas do que no desenho anterior.

Entre esse desenho e o anterior, perdi a caneta. Tive que comprar uma nova por R$90,00 reais, que veio da china e demorou cerca de 1 mês pra chegar, porque não consegui encontrar nenhum lugar no Brasil que vendesse por menos de R$ 150,00 reais.

Vênus em linha - 15/08/2019
Vênus em linha – 15/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )

Inspirada pela ideia de reproduzir divindades femininas dei sequência a outros desenhos seguindo a mesma lógica.

Escolhi desenhar a Deusa celta da morte e da batalha Morrigan, porque tinha alguma ideia de seguir numa linha entre representações femininas e a sua co-relação simbólica com os 7 planetas tradicionais da astrologia. Já que tinha começado por Afrodite/Vênus, Morrigan seria a representante de Marte.

Morrigan em linha - 17/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )
Morrigan em linha – 17/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )

Em relação a ideia das Deusas e a sua relação astrológica, me pareceu bem interessante colocá-las sob galáxias pra representar a divindade. O espaço e o fascínio do homem pelo desconhecido universo, assume muito dos aspectos encontrados nas divindades femininas e seus mistérios. Se antes a humanidade acreditava que seus Deuses habitavam os Céus, e viam o céu como a ultima fronteira entre o que seria humano e o que seria divino. Hoje o espaço e o encantamento pela beleza das galáxias representa muito disso. O limite da fé humana.

Sobrepor galáxias contra o desenho em branco me surpreendeu porque não imaginava que mexer com as matrizes e tonalidades pudesse causar um efeito tão legal contra o branco. Também optei por usar como referência a foto de uma estatueta ao invés de uma pintura, porque me permitira explorar mais em relação a profundidade.

Esse desenho foi um divisor de águas na minha concepção sobre o que poderia produzir com a tablet, já que grande parte do sombreamento foi feito sem o recurso de sobreposição e também já estava mais familiarizada e confiante nos traços.  Também procurei explorar mais a pressão da caneta com linhas mais grossas ou finas.

Morrigan de Marte - 17/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )
Morrigan de Marte – 17/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )

Estando bem mais confiante com a tablet, dei sequencia ao desenho que ilustra este post com a Deusa romana da lua e da caça Diana. A princípio utilizei como referência a pintura  Diana, a caçadora de Guillaume Seignac para fazer os contornos principais e depois fiz a mão livre o sombreamento.

Diana seria a representação simbólica da Lua, então posicionei a galáxia atrás dela de forma que uma estrela ficasse como uma lágrima em seu rosto.
A Lua na astrologia representa principalmente as emoções e o feminino, por isso também optei por utilizar tons de cores que fizessem menção a isso na parte superior da imagem, iniciando no peito e expandindo para cima. Uma tentativa de representar as emoções afloradas que brotam no peito e sobem a cabeça.
A escolha de tons azuis na parte de baixo, fazem menção a água; elemento relacionado à Lua e ao signo Câncer que tem como seu planeta regente.  A outra estrela acabou, por um acaso, posicionada no braço esquerdo dela.

Apesar de não ter ficado tão legal esteticamente, gostei do significado que isso tem pra mim. Já que na mão direita, a mão do raciocínio e da ação, ela tem um arco; e na mão esquerda, a mão do inconsciente e das emoções, ela teria uma estrela como guia em sua busca.

Diana da Lua - 20/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )
Diana da Lua – 20/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )

Apesar de ter gostado muito de fazer essa sequencia de representações femininas, acabei enjoando da forma como estava produzindo-as e parti pra algo mais autoral, ainda sim uma releitura, porém mais livre e menos restritivo.

A pintura escolhida para fazer a releitura foi Salomé com a cabeça de João Batista de Reni Guido. Dessa vez, não utilizei a sobreposição de camadas e desenhei à partir apenas da referência visual e explorei muito mais as linhas grossas e o forte contraste com o preto pra dar um tom dramático a imagem. Percebi que por estar mais familiarizada com o programa e a tablet, os traços passaram a se aproximar mais do meu estilo de desenho com a pena e o nanquim.

A tablet me permitiu explorar muito mais o lado de desenhar com liberdade, sem ter medo de errar ou borrar o desenho. Outro recurso dos pincéis com textura que achei muito interessante, foi esse que utilizei para fazer as estrelas ao redor da auréola.

Salomé é uma figura feminina bíblica, que apesar de “serem duas pessoas diferentes” mencionadas na bíblia. Sendo uma a irmã de Maria que testemunhou a crucificação de Cristo, e esteve presente no sepulcro junto com outras três mulheres; e a outra sendo a filha de Herodias, princesa e dançarina responsável pela decapitação do profeta João Batista. Ela representa hoje para muitas correntes ocultistas de Mão Esquerda, um simbolo feminino contrário a dominação cristã e seu Deus, simbolo do patriarcado institucional. Ela também é correlacionada dentro dessas correntes com entidades femininas hindu que portam cabeças decapitadas, como Kali,  e simbolizam o lado negro e selvagem do feminino que habita em todas as mulheres e são responsáveis pela criação e destruição do universo. Dentro do Satanismo Tradicional ela é uma referencia histórica e simbólica para a construção do mito da Mãe de Sangue, ou Baphomet. 

Mãe Salomé - 10/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )
Mãe Salomé – 10/08/2019 por Kaligula ( Victoria Lisboa )
Este foi meu último desenho em arte digital e pretendo continuar explorando ainda mais esse universo e as suas possibilidades. Por enquanto, posso dizer que as tintas ainda me atraem muito mais, mas não descarto a possibilidade de um dia unir essas duas formas de expressão para criar algo que “vá além” de uma manifestação digital.

Espero que tenham gostado e em breve estarei postando mais coisas por aqui. O blog acabou ficando de lado durante o ano da minha mudança para São Paulo, mas agora finalmente instalada na minha nova casa e com um espaço para montar meu ateliê poderei me dedicar mais a essa arte da alma humana que tanto amo.


Um grande abraço.

Victoria Lisboa, a Kaligula.

Verão de 2020

Uma resposta em “Algumas experiências com arte digital

  1. Inomináveis Saudações, Kaligula Runavigonark!

    Cheguei até aqui através do Oráculos do Abismo, onde conheci algumas artes suas. Teu trabalho é encantador, principalmente por tratar do Oculto, algo que eu muito tenho em conta por estudar o assunto. Todas as simbologias possíveis nestas obras digitais estão perfeitas, bem dentro das propostas de cada uma. Você concatenou as referências e deu um estilo bem próprio, isso que é incomum de ocorrer porque já vi obras que referenciam outras, clássicas, que não modificaram ou adicionaram nada ao contexto visual/interpretativo das originais.

    O processo do transe na criação digital consegue ser idêntico ao do com materiais como tinta e Nanquim?

    Curtido por 1 pessoa

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