O dilema do artista e o preço da própria arte

“A arte tem que nos revelar ideias, essências espirituais amorfas. A suprema questão para uma obra de arte é quão profunda é a vida de onde ela brota.”


JAMES JOYCE
Mercúrio em Câncer, o eclipse do ser, 2020 - Kaligula
Mercúrio em Câncer, o eclipse do ser, 2020 – Kaligula

Acredito que todos os artistas tem que passar pelo processo de aprender valorizar a própria arte. Não apenas no sentido de encontrar o próprio valor através da arte, mas também no quesito mais econômico da coisa.

Essa parece ser uma das fases que não só começa a carreira do artista mas também onde brotam as primeiras sementes do reconhecimento do trabalho artístico.
E assim como uma adolescente, eu me sinto passando essa fase. Uma fase cheia de inseguranças e questionamentos que me fazem refletir sobre o quanto vale a minha arte.

A primeira pergunta que me fazem é “quanto eu cobro pra fazer uma arte? “, a primeira pergunta que eu me faço é “qual é o valor da minha arte?”. Entende meu dilema?  Não é fácil encontrar um valor quando se precisa responder sobre um preço.

Como calcular a própria expressão criativa dentro da lógica de um produto, onde você precisa ter alguma noção de lucro e custos para chegar até um valor razoável. Os custos certamente seriam sobre os materiais, que não são nada baratos pois é muito caro fazer arte no Brasil, e até ai tudo bem. Mas e sobre os lucros? Que no sentido amplo da coisa são os ganhos e vantagens obtidos, o retorno de um investimento.

Enxergar minha arte como um investimento por essa lógica pra tentar encontrar um preço não me agrada e nem parece combinar com o sentimento que me move pela paixão da manifestação dos símbolos, das cores e do seu poder de comunicação.
E normalmente o preço pago pelos materiais costuma pagar-se pelo prazer de pintar.

É uma conta bem abstrata de se fazer. Somar custos em preços e lucros em prazeres metafísicos? A unidade de medida que quantifica a experiência do artista através de cada uma das suas obras não é a mesma que debita da minha conta. É um problema bem difícil e eu sempre fui péssima em matemática, não é atoa que sou artista!

Tem uma outra questão também, o artista nunca deixa de ser dono da própria arte. Não importa onde cada uma de nossas criações vá parar, ela sempre será parte de nós. Cada impressão registrada pelo acaso das pinceladas é um registro do mundo que vejo por trás dos meus olhos. Fruto das partes mais profundas da minha alma, que até mesmo eu não conhecia antes de manifesta-las. Não sei se é algo que se pode vender.

Questões de uma alma artista vivendo numa sociedade extremamente capitalista e competitiva imagino. Acho que todos nós, artistas, sonhamos muito com o momento em que poderemos parar de nos preocupar em precificar nossa arte e transforma-la num produto; para passarmos apenas à nos preocuparmos em fazê-la.




Outono, 2020
Victoria Lisboa, a Kaligula

Uma resposta em “O dilema do artista e o preço da própria arte

  1. Pingback: Qual o preço da arte? - Papo Reto

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