A magia de Rosa Caveira

Foi na calunga que um boato se espalhou

Uma mulher da morte retornou

“Numa caverna na estalagem das almas, perdida vagava me perguntando onde estava. Uma moça pegou minha mão, disse que precisava me apresentar a alguém, seu vestido pintado pelo meio me chamou atenção.
Ela ajeitou a rosa no cabelo, olhou para mim e disse que a melhor parte de estar morta era poder dar risada, e gargalhou na minha cara.
A mão de esqueleto que me segurava, guiava-me pela escuridão com passos de dança entre os mortos.”

Acordei nesse dia com o nome Rosa Caveira claro na minha mente, um pouco confusa porque nunca tinha tido qualquer tipo de envolvimento com Exus na época, mas não havia dúvidas de que tinha sonhado com uma pomba gira e que ela tinha se apresentado. Meu conhecimento sobre esses espíritos não passava de um grande respeito, que me fazia não me aventurar no campo da espiritualidade brasileira por receio de desrespeitar essas entidades. Mas após esse sonho, foi como se a minha memória fizesse questão de reviver cada momento da minha infância em que fiquei impressionada com as histórias de envolvimento com a macumba da minha família.

Percebi que guardava com muito carinho cada informação colhida quando criança das conversas entre minha mãe, tia e avó. Fascinada, ouvia elas contando sobre o que tinham pedido em busca de proteção e cura, bisbilhotava com curiosidade os objetos abençoados que elas traziam dos centros que protegeriam nossa família. Tudo era muito fantástico e misterioso sobre essas histórias, e a boneca dada por um espírito era o objeto de atenção mais disputado entre mim e minhas irmãs.

Os sonhos com a Rosa Caveira continuaram, cada vez ela aparecia em um contexto diferente, revelando detalhes da minha vida que estavam passando desapercebidos. Chamando minha atenção para os sentimentos desagradáveis que guardava as 7 chaves no peito escondendo-os de mim mesma, me convidando a olhar para eles através do seu olhar sarcástico e sério. Ela aparecia para mim como uma mulher sábia de humor ácido, uma amante traída que não queria vingança, uma dançarina das almas que carregava minhas dores em sua caveira.

Uma ligação sutil entre nós duas foi surgindo e quanto mais eu confiasse nela; mais ela estaria presente na minha vida. Seus presentes, pelo meu bom comportamento comigo mesma, vinham sempre na hora certa e mostravam que havia amor e esperança apesar de qualquer sofrimento. Que não precisaria sofrer pelas minhas escolhas desde que assumisse a integridade das minhas emoções. Fossem elas boas ou ruins.

Não pesquisei sua história, nem fui atrás de informações sobre ela, suas imagens e pontos eram o suficiente pra mim naquele momento. A mulher metade caveira parecia se comunicar comigo através das imagens e eu sentia grande admiração por essa entidade que tinha despertado algo em mim.

Dei forma aos seus contornos com meu pincel e senti a satisfação dela através dos seus humores, ela não aceitava nada menos do que ser muito bem tratada, e assim como gostava de me dar presentes, também gostava de ganhar. Dividimos vinhos, cigarros, segredos, abri meu coração pra ela como uma filha que procura a segurança do colo da mãe. Ela me abraçou com carinho e me ensinou que não importa quantos espinhos tenha uma rosa, ela sempre vai ser uma rosa.

O tempo passou, e que surpresa maravilhosa tive em saber que de fato era a Dona Rosa Caveira minha pomba gira, a senhora do meu destino. Os presentes ficaram mais refinados, busquei conhecer seus gostos, nos aproximamos cada vez mais. Sentia seu olhar sobre mim em cada feitiço que fazia, sua mão de esqueleto se colocava sobre a minha como uma mentora confiante em cada magia mais ousada. Nos momentos mais sombrios, ela vinha calmamente e me mostrava a solução.

Sua calma, nunca foi um disfarce da sua seriedade, ela me olhava com os mesmos olhos de uma professora e sua proteção me lembrava do amor da minha mãe. Quando descia ao mundo dos mortos, acorrentada pelos meus demônios, ela me aguardava na porta do cemitério com a cara fechada. Implorava pela sua ajuda e ela me dizia que pra pisar na calunga era preciso ter o coração limpo, porque em campo santo meu medo tolo não seria bem-vindo. Era preciso confiança na verdade, a vida não era feita de maldições imaginárias criadas por quem não me queria bem.
De maldições Rosa Caveira sempre entendeu bem, é especialista no assunto e quebrá-las é sua parte favorita. Porque quem sabe perdoar entende como funcionam os caminhos da dor no coração.

As vezes, ela se afasta, fica me observando de longe. Escuto sua voz dizendo: “Você consegue caminhar sozinha criança, tenha fé”. Eu engatinho então através dos meus dilemas e busco sua força através do meu coração, encontro coragem e orgulho da minha história assim como ela me ensinou.

Deixo então aquilo que precisa morrer em mim, faço um belo funeral com direito a muito choro e vinho, danço com as minhas angústias no túmulo que cavei para mim mesma e me permito renascer com as rosas do campo santo.


Outono, 2020
Victoria Lisboa, a Kaligula

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