Pela metade morta, para a viva: um desabafo em tempos de quarentena

” Quando, seja pela felicidade ou pela desgraça, é a alma especialmente impressionada, chega-se a supor que a nada mais ela se faz sensível.”

Dante Alighieri
Rosa Caveira, em arte digital – Kaligula, 2020

Então, o mundo virou de cabeça pra baixo de vez ultimamente. Não que as coisas estivessem normais antes, muito pelo contrário. Só que na ultima porção de dias, que se perderam nas minhas contas, não tenho mais esperado por nada dentro do que consideraria normal em outras circunstâncias. Num panorama longe, talvez eu já tenha me afastado tanto do que é normal, que a própria anormalidade já se tornou rotina.

O que me assusta.

Já que se afastar do normal, implica numa exploração de novas áreas emocionais. Depois dessa montanha russa dos últimos dias, me sinto realmente muito cansada e entorpecida pra continuar deixando minha energia fluir por esse ralo de informações perturbadoras que jorram da tela do meu celular.

Calma ….

Respira !

A questão, é que sempre duvidei da minha sensibilidade.

Achava que era feita de um material emocional mais rígido, que conseguia passar bem pelo desfile de horrores humanitários diários sem me afetar. Sabe?
Deixava que uma neblina mental, causada pelos meus próprios problemas, cobrisse meus olhos para que não sofresse por aqueles que nada poderia fazer. Enquanto estivesse imersa em minha própria dor, estaria distraída das dores dos outros. Pra resumir, acabei me fechando ao fechar os olhos achando que isso me garantiria o selo de durona emocionalmente.

Até que chegamos ao presente momento na quarentena, onde as dores de todas as pessoas passaram à serem muito vividas e estarem expostas em todos os lugares, porque afinal, todos estamos sofrendo nesse momento juntos.
Confesso ter virado uma manteiga derretida excepcional. Tudo me tira lágrimas.

Entendi então que tinha subestimado minha capacidade de me sensibilizar e ser afetada por um verdadeiro carnaval de emoções a cada leitura na internet. Minhas dores agora parecem tão grandes, pois se juntaram a tantas outras dores que apenas sentimos todos juntos.

Assisto me sentindo impotente a cada noticiário, cada vez mais consciente de que nada posso fazer de efetivo para ajudar, a não ser rezar por essas pessoas e desejar do fundo meu coração que elas encontrem todo suporte necessário para passar por essa era negra.

Mas em algum ponto, acho que cruzei a linha da tristeza na escuridão durante essas noites, e não me lembro se foi pelo amor ou pela dor. E da escuridão, é difícil enxergar quando se está cego de ódio. Não sem razão é claro, você não acreditaria na quantidade de injustiças que consigo te contar apenas dos últimos meses.
O gosto por sangue nessa altura do campeonato não é sem fundamento, e alguns bem que mereciam ter suas cabeças cortadas por causar tanto sofrimento.

Essa devastação interna que só poderia encontrar saciação em outra devastação externa, só poderia continuar como uma raiva sem fim. Algo que só tem a finalidade em sí mesma, se auto-consumindo, e no fim continua me deixando perdida aqui no inferno por eras.

Uma hora, você até mesmo se cansa disso.

Então, se fosse para apostar em algo para gastar energias, já que as previsões só parecem cada vez mais assustadoras, apostaria em dar o melhor que você tem ai dentro. Já é a única coisa que todos nós temos, e podemos dar de graça um para os outros.

O nosso dom.



Outono, 2020
Victoria Lisboa, a Kaligula.

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