Pontas sem nós de um retrato inacabado

” And you reach out through that wall of glass
You try to leave this stage at last
And you’re running from the promises
That have been made to you in the past

– OKTA LOGUE

Nada tem me incomodado mais ultimamente do que o fantasma dos desenhos que não tive o prazer de terminar. Comecei muitas pinturas, gravuras e abstrações; mas confesso que das ultimas que iniciei nenhuma delas consegui acabar. Segui saltando de um desenho para o outro sem me importar em finalizar nenhum deles. E mesmo que com um longo período de intervalo entre eles; simplesmente não retomei as pinturas.

Há uma pilha de quadros inacabados, entocados pelos lugares, me observando e questionando qual será seu destino final. Eles me observam silenciosos, na sua muda agonia de não ter um destino. Eu os encaro de volta, questionando a mesma coisa.

Qual seria seu final?

Tive grandes ideias, entorpecentes alucinações de previsões que me mostravam até onde eu ansiava por chegar. Até onde estava disposta a testar minha capacidade pra criar, testar o limite das minhas habilidades em busca da execução da obra, sempre com o frescor de uma primeira vez. Essa explosão inicial me faz iniciar eufórica os primeiros traços.

Uma tímida exploração, que é movida por sentimento puro, me domina. E antes mesmo que pudesse ter pensado no que iria fazer. Já tinha feito. Impulso absoluto que impera dentro de mim, e me movimenta antes que pense sobre o espaço em branco que preciso preencher de cor.

Será que eu havia cogitado sobre o tempo necessário para fazer esse desenho? Calculado prazos e metas pra quantificar uma porção limitada da minha existência pra dedicar a esse sopro? Óbvio que não. Quando vi, já tinha me jogado em salto alucinado rumo ao desconhecido .

É com essa mesma euforia que abandono de lado o quadro. Perco o interesse rapidamente quando percebo algum rastro do medo de falhar com a minha abstração. O medo de estragar o que já tinha sido feito até ali, mesmo que fosse sempre por puro impulso e que a sua beleza vinha justamente por acaso.

Talvez seja esse o segredo, confiar sempre nas resoluções do acaso e seguir vibrando e vivendo. Todas as vezes em que me pegar tentando controlar, julgar e criticar cada parte do processo de pintura crio barreiras na minha coragem.

A pintura exige muita coragem se você vive com medo da morte, do ponto inacabado que se finaliza e encerra um ciclo. É preciso transformar, ousar, arriscar e não se importar com as consequências, por mais louco que isso possa parecer. O fim só se encontra sempre no ponto fora da curva. No inesperado. Quando você está plenamente presente e acordada se equilibrando no eterno vir-a-ser.



Victória Lisboa,
Verão de 2021

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s