A Magia da Arte: artigo para o mulheres da magia

Quando o Diabo era uma mulher,
Quando Lilith enrolou
Seu cabelo de ébano em pesadas tranças,
E emoldurou
Suas feições pálidas com os
pensamentos emaranhados de Botticelli,
Quando ela, sorrindo suavemente,
Rodou todos os seus dedos magros
Em faixas douradas com pedras brilhantes,
Quando Ela folheou Villiers
E amou Huysmans,
Quando ela sondou o silêncio de Maeterlinck
E banhou sua Alma
Nas cores de Gabriel d’Annunzio,
Ela até riu
E como ela riu,
A pequena princesa das serpentes saltou
de sua boca.
Então a mais bela das diabas
Procurou a serpente,
Ela agarrou a Rainha das Serpentes
com seu dedo anelado, De
modo que ela feriu e sibilou
Assobiou, assobiou
E cuspiu veneno.
Em um vaso de cobre pesado;
Terra
úmida, Terra úmida negra
Ela se espalhou sobre ela.
Levemente suas grandes mãos acariciaram
Este pesado vaso de cobre
Ao redor,
Seus pálidos lábios cantaram levemente
Sua antiga maldição.
Como uma rima infantil, suas maldições soaram,
Suaves e lânguidas,
Languidas como os beijos,
Que a terra úmida bebeu
de sua boca,
Mas a vida surgiu no vaso,
E tentada por seus beijos lânguidos,
E tentada por aqueles tons doces,
Da terra negra lentamente se esgueiraram,
Orquídeas
Quando a mais amada
Adorna suas feições pálidas diante do espelho
Tudo em volta com víboras de Botticelli
Rastejam para o lado do vaso de cobre, Orquídeas
Flores do diabo que a terra antiga, Casadas
pela maldição de Lilith
Para o veneno da serpente trouxe à luz
Orquídeas, as flores do Diabo

HANNS HEINZ EWERS

Lilith, 2020 – Kaligula

O invisível e o visível se unem abstratamente em nossas mentes e corações. O mundo invisível toca tudo aquilo que não podemos sentir com nossas mãos, mas sentimos suas vibrações através dos arrepios em nossa pele. O mundo visível, é tudo aquilo que conseguimos tocar com nossos olhos e sentir em nossas memórias. 

A arte, sempre foi um mediador entre o mundo imaterial e o material. Um canal de comunicação entre o que conseguimos abstrair das nossas impressões sobre a realidade, e o que manifestamos subjetivamente para alimentar nossas concepções sobre os poderes invisíveis. 

No traço do artista, encontramos símbolos, deuses, santos e diabos; vislumbramos perguntas, encontramos respostas, buscamos aquilo que alimenta nossa insaciável sede do algo mais. Já o artista, encontra em sua própria arte o âmago de seu ser; a sua inspiração de vida, centelha divina da criação de seu universo particular e íntimo. O artista é mais do que um mero mediador, ele é parte ativa do processo de construção da fé; ele está ali, em sua função quase sacerdotal de manifestar aquilo que a razão das palavras não consegue descrever, mas que o coração entende. 

A comunicação da arte não é racional, é subjetiva; fala direto ao coração o que nossas mentes não conseguem descrever; é a linguagem primitiva do invisível. 

Quando manifestamos símbolos que tem grande importância emocional na ligação com nossas crenças, nos sentimos parte criadora e ativa de nossos universos. Reconhecemos o poder de comunicação que cada um de nós tem com os seres invisíveis, reforçamos nossos laços de fé, percebemos visualmente o quanto nós, desse lado, estamos unidos com os outros, do outro lado. Rompemos a barreira do mundo visível e invisível. 

Nossa relação com o mundo invisível nem sempre é de cá pra lá, muitas vezes ela também é de lá para cá; isso quer dizer o quão ativos ou passivos somos em relação a direção das energias que transitam e fluem entre os mundos; se recebemos informações, ou enviamos informações para o outro lado, e como respondemos. A arte também faz parte desse processo.
Enquanto alguns artistas se concentraram em enviar informações através das suas criações, moldando o universo. Alguns outros artistas se concentram na manifestação dessas informações já existentes do outro lado e no compartilhamento com os outros dessas informações que ele recebe. 

Cada um de nós possui esses dois tipos de artistas dentro de sí, escolhendo em diferentes momentos da vida de que maneira manifestará a sua arte no mundo. 

Na magia, não é diferente. Podemos ser ativos, ou passivos com os poderes que trabalhamos; se agimos nos mundos de acordo com nossas vontades, ou se precisamos refletir sobre o resultado das ações dos mundos em nós. A arte é uma das ferramentas mais incríveis que podemos utilizar para manipular esses processos. Através de um desenho feito de maneira automática, por exemplo, podemos dar forma ao que não entendemos racionalmente; mas que angustia nosso peito. Já um desejo pode ser manifestado em um símbolo para que ele faça acontecer aquela ideia no mundo. 

A experiência de se entender como criador e resultado da própria arte de ser, abre as portas da nossa percepção sobre a essência do que sempre fomos, visível e invisivelmente.

Publicado originalmente em: https://mulheresdamagia.com.br/

Escrito durante o Outono, 2020
Victória Lisboa, a Kaligula

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