Uma arte da alma

“Um paradoxo se coloca: o moderno, no presente, volta-se ao passado. Recusa o antigo, mas refugia-se na história: modernidade e moda retrô caminham em par” – Jacques Le Goff 


Talvez meu interesse por arte tenha surgido mais ou menos ao mesmo tempo quando comecei a me interessar por mitologias, deuses antigos, culturas diferentes e tudo aquilo que aguçasse minha curiosidade quando criança. Talvez ai, durante esses tenros anos da infância, é que tenha começado a minha história de interesse pelo invisível através do era visível. É por isso que pra começar a contar a história do surgimento desse blog é que volto no tempo, com a minha própria história. Relembrando minhas memórias.

Costumo sempre falar sobre minha própria infância com um tom muito saudoso. Guardo com muito carinho e afeto as memórias desse tempo. Eu fui uma criança criada na beira da praia, numa mistura de cidade do interior litorânea com aquele toque de roça que só o interior é capaz de dar. Passava minhas férias sob o sol, brincando na água salgada, indo pra casa dos avós; subindo em árvores, correndo atrás das galinhas e sendo feliz daquela maneira que só as crianças sabem ser. Quando volto ao meu passado e olho com as lentes do presente aquela época, percebo quanta magia existia em viver num lugar que me permitiu ter tanto contato com natureza.

Influenciada pelo hábito de leitura do meu avô paterno, eu passei ler. Meus livros favoritos variavam entre literatura fantástica e mitologias, enquanto o mundo de fantasia me transportava pra outra realidade, cheia de magia, fadas, bruxas, feiticeiras, guerreiros e dragões; a mitologia me fazia voltar no tempo da humanidade. Conhecer a história espiritual de civilizações antigas era tão fantástico quanto meus livros de literatura medieval. Enquanto metade de mim brincava no quintal cheio de plantas, árvores e animais, a outra metade estava em outro lugar muito longe e mágico, alimentado pela minha fértil imaginação e por tudo aquilo que eu lia com tanto prazer.
Desenhar foi parte natural de todo esse processo. Com tanta informação, tanta curiosidade e uma necessidade inconsciente de expressar tudo aquilo que era fermentado dentro de mim, comecei a colocar no papel o que habitava minha imaginação.

Com o passar do tempo, descobri que a mitologia e as histórias mirabolantes e fantásticas não estavam tão longe assim da realidade quanto pareciam. Os mitos se tornaram ensinamentos espirituais, a ficção se transformou em lições de vida e conhecimento, as árvores e plantas se tornaram medicamentos preciosos pro corpo e espirito, o mar ganhou vida, os animais assumiram a forma de guias e os hábitos dos avós as primeiras ligações com os ancestrais mais próximos.

Nós somos frutos de tudo aquilo pelo o que passamos e vivemos. Nossas experiências e memórias formam a base que precisamos nessa vida para dar continuidade as nossas jornadas. Cada memória, cada acontecimento e cada pequeno fato de nossa vida, são as pedras que compõem nosso caminho pela caminhada da alma no mundo. Se a infância é o nosso inicio de jornada, então os acontecimentos dessa época são as primeiras pedras que colocamos; pedras estas que irão nos dar as primeiras direções e os primeiros passos nesse caminhar. Costumamos esquecer desses primeiros anos, esquecemos da sua importância, relegamos a memória desse tempo lugar indigno na nossa consciência. Lembrar é manter vivo, é olhar para trás e entender o presente. É saber para onde vamos por saber de onde viemos. É por isso que frequentemente busco nas memórias da infância respostas para os dilemas e problemas do presente, assim como ideias e inspiração.

Passado o doce tempo de criança, já no tempo complicado da adolescência. Precisei buscar uma saída para dar vazão as emoções e fantasmas internos que começavam a ganhar forma. A Arte foi minha solução. Tanto a arte do desenho e da pintura, quanto a arte da alma humana, que é popularmente conhecida como espiritualidade. Buscar o caminho espiritual para sanar minhas maiores dúvidas internas era uma necessidade e obsessão, assim como desenhar e materializar meus demônios através da arte. O que me fez ter contato com diversas formas de expressar a espiritualidade e trabalha-la.

O tempo passou, assim como as mudanças também passaram e fizeram seu legado, mas essa necessidade nunca mudou; eu diria que muito pelo contrário, ela vem aumentando cada vez mais. Durantes todos esses anos que venho estudando ocultismo, religiões e magia; conheci diversas visões diferentes sobre o que era o “outro lado”, e como lidar com ele, das formas mais sombrias às formas mais luminosas. Algumas eu conheci na prática e outras apenas pela teoria. O resultado de toda essa pesquisa foi a construção de um retalho com tudo aquilo que julgava mais interessante em cada uma dessas diferentes tradições. Eu continuo fazendo isso, e sigo englobando às minhas práticas pessoais o que julgo ser mais interessante ou útil para a minha jornada.

Em um determinado ponto,  passei a expressar minhas experiências espirituais e os poderes com que lidava através da arte, tanto por necessidade quanto como uma forma de tornar mais compreensível e visível com o que eu trabalhava. Como compreensão, a arte foi fundamental para conscientizar os ensinamentos e os mistérios, quanto para entender melhor meu interior. Uma forma de expressar o micro e macro cosmo. Como visível, uma maneira de canalizar e possuir imagens com que pudesse trabalhar tanto em trabalhos meditativos quanto “devocionais” que fossem mais significativos pra mim. Afinal de contas era parte uma expressão da minha espiritualidade. Quando comecei esse processo e ele foi se desenvolvendo, e conforme eu mesma me desenvolvia e me tornava mais experiente com as coisas que ia lidando, outras pessoas começaram a encontrar na minha arte ligações que também as conectava com a sua própria espiritualidade. Meu caminho tinha se tornado mais claro e eu descobri uma das minhas funções nessa vida. Auxiliar outras pessoas a se conectarem melhor com suas tradições e poderes.

É esta habilidade que tenho desenvolvido principalmente com a pintura; criar conexões entre o material visível e o material invisível do outro lado. Uma união entre poderes e imagens através da canalização mágica e artística. Neste trabalho, me coloco como um canal, um portal para que as coisas se manifestem através de imagens e toquem aqueles que tiverem uma ligação com os símbolos e chaves que estejam presentes, para que mudanças na consciência e na realidade sejam feitas. Esta é uma das propostas desse blog, contar um pouco da minha experiência nesse processo além de compartilhar a arte da alma que tenho feito.

“A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos (palavras ou imagens), para operar mudanças de consciência” – Alan Moore

Sejam bem-vindos,
Grande abraço.
Victoria lisboa, a Kaligula


Inverno de 2018

2 respostas em “Uma arte da alma

  1. “Dance with me
    While our city is burning
    Won’t you dance with me
    While our empire is falling
    Like Nero let’s make music to the
    Fires of Rome

    It’s my Caligula syndrome
    My Caligula syndrome”
    .
    Fico feliz que finalmente tenha criado este espaço para expressar seu Caminho!
    Mais um ótimo lugar para se frequentar e achar expressões de natureza única.
    Beijos, Bênçãos e Maldições!
    FFFF

    Curtido por 1 pessoa

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